ESPIRITISMO NO BRASIL
por Lucilla- meridius@superig.com.br

"Como muitos outros simpatizantes e confrades, fui à banca e comprei o exemplar da revista VEJA que coloca como matéria de capa o Espiritismo no Brasil.

Costumo acompanhar nos veículos de comunicação tidos como sérios e socialmente responsáveis a divulgação das matérias com este conteúdo, porque até um tempo atrás andava farta de ver gente fazendo confusão proposital a respeito, numa salada indigesta, que trazia em seu bojo o Espiritismo kardecista, as linhas da Umbanda, o Candomblé, a Quimbanda, e por aí afora, como se fossem todas essas coisas uma só - e tudo graças a uma desinformação o mais das vezes intencional, divulgada em grande escala por gente cética e saturada de idéias pré-concebidas, e obviamente interessada em denegrir a essência do Espiritismo e a sua realidade prática.

Pude notar que com o advento da Transcomunicação, por exemplo - que conduz o assunto sob o respaldo do estudo de muitos renomados cientistas estrangeiros, com Congressos espalhados ao redor de todo o mundo oferecendo a qualquer estudioso sincero uma fartura abundante de registros instrumentais de gravações de voz e em vídeo da vida nas dimensões invisíveis - os debochados de plantão recuaram um tanto para não passarem, no mínimo, por idiotas, tendo como base o velho adágio que diz que "contra fatos não há argumentos”.

Efetivamente, uma coisa é você crer ou não em Papai Noel. Outra é assumir a atitude bizarra de um indivíduo que, anos atrás - esse caso foi fartamente divulgado no noticiário - dentro de um avião, voltou o rosto fingindo que dormia, para não se solidarizar com toda a tripulação mais os passageiros que, unanimemente, presenciaram um UFO acompanhar o vôo por vários e vários minutos. É a clássica atitude batizada de "defesa do avestruz".

Mas voltemos à reportagem da VEJA. Li e apreciei devidamente a seriedade com que o assunto foi tratado - aliás, como não poderia deixar de ser... Até que, no fim, uma derrapada tendenciosa e escandalosa, mas tradicional, comprometeu, senão toda a matéria, ao menos parte da impressão digna de imparcialidade com que aparentemente havia sido conduzida até aquele ponto.

Após enfileirar dados estatísticos do avultado número de espíritas no Brasil; comentários doutos de intelectuais, e testemunhos de personagens conhecidos da sociedade brasileira depondo a favor do esclarecimento veiculado pelo Espiritismo em si, e as boas razões pelas quais incontável número de pessoas em todo mundo o adotam e assimilam como importante salto qualitativo de alcance de suas consciências - mostrando a presença do conceito importante da reencarnação nas múltiplas e sábias doutrinas milenares existentes de há tempos incontáveis na história da humanidade - pareceu de bom tom aos repórteres, sabe-se lá movidos por qual intenção (ou idéia pré-concebida), encerrarem o artigo mencionando a opinião de um tal Charles Kempf, coordenador dos estudos espíritas Léon Denis de Thann, na França, sobre as razões do Espiritismo ter decolado tão alto no Brasil, enquanto na própria França, berço da Doutrina dos Espíritos codificada por Allan Kardec, ter definhado com o passar do tempo. Uma opinião "bem material", como destacam os próprios repórteres.

Kempf diz que "a prática da caridade e do assistencialismo chancelou o Espiritismo no Brasil". Uma forma bastante dúbia de encarar a coisa, como se o assistencialismo praticado pelo Espiritismo se nivelasse àquele outro tipo, muito conhecido e usado por outras vertentes do pensamento religioso, com o fim de angariar prosélitos.

Neste pé da matéria esqueceram de mencionar, num lapso bastante conveniente, que o assistencialismo espírita é conseqüência natural do entendimento pacífico de que, com a eternidade pela frente, nos encontramos todos no mesmo barco evolutivo e repleto de um aprendizado eficiente, sobretudo, em incutir nas mentes cada vez mais amadurecidas a noção de que o fracasso de um é o fracasso de muitos, e que o progresso espiritual coletivo é interesse comum, não se concebendo, portanto, qualquer sentimento de vitória egoísta, ou de paz na consciência, numa abordagem íntegra e cônscia, enquanto alguns se demoram para trás perdidos nas armadilhas da invigilância cega da materialidade terrena.

Ignoraram, de dentro de uma visão distorcida, que o primeiro e valiosíssimo assistencialismo veiculado pelo espiritismo se dá, antes, no imo do próprio ser, na medida em que ele compreende com mais clareza as razões da sua presença transitória neste orbe de aprendizado árduo e de atribulações, visando a melhoria do seu entendimento para com os grandes propósitos da vida, a partir do que, aí sim, todo o assistencialismo material se justifica e encontra espontaneamente a sua base.

Arremata-se absurdamente a declaração de Kempf com a alegação de que na França isto não ocorreu porque "o assistencialismo do Estado francês funciona com razoável perfeição, não deixando espaço para os espíritas utilizarem esse recurso para angariar um rebanho muito maior."

Para mim, a utilidade da reportagem foi por água abaixo... porque as implicações de uma assertiva dessa são evidentes.

Ora, vamos colocar os pingos nos "ís"!

No decorrer da minha trajetória de mais de vinte anos como estudiosa, não só do Espiritismo Kardecista, como de outras vertentes religiosas similares em seus princípios, ficou evidente que para todo aquele que se acerque dessas questões com lisura e com honestidade de intenções no seu processo de auto-conhecimento, a doutrina Kardecista e as afins não tem como objeto "angariar um rebanho muito maior". Porque a ressonância em ordem crescente que estas doutrinas despertam na alma e no coração das pessoas não possui origem tão rasteira.

O fato é que o espírito humano responde em eco a tudo que proclame as grandes Realidades no Universo; ao que espelhe a sua origem e finalidade últimas; ao que o leve a entrever o que o aguarda em termos de progresso íntimo: as elevadas conquistas do espírito, que lhe permitirão descerrar asas de luz rumo às paragens infinitas e distanciadas das exigências de aprendizado acanhadas da materialidade terrestre. Algo lhe segreda que há muito mais para todos; porque disso já o intui a centelha divina que dormita eqüaninemente em si, como nos outros. E isso nada tem a ver com assistencialismo barato, com cestas básicas e com paliativos da hora que passa, ligadas às manobras tacanhas de poder político e religioso, que não mitigam-lhe as necessidades últimas enquanto filho da Criação; que o deixam, antes, com sede de algo mais - sempre na falta de algo mais...

Façam-me o favor, senhores! Espiritismo autêntico, na sua pureza luminescente, é constituído da linguagem inefável das mais altas esferas, e dos parâmetros das dimensões de vida quintessenciadas, que não encontram analogia nos termos materiais terrenos. Da próxima vez que quiserem abordar a questão com seriedade, respeitem a integridade do assunto, sem pretenderem que os componentes livres do ar venham um dia a tomar, irreversívelmente, a forma de uma garrafa, ao seu bel prazer...

"O Espírito sopra onde quer; e ninguém há de saber de onde veio, ou para onde vai."

Lucilla e Caio F. Quinto

"Elysium"

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