JARDIM DO ÉDEN
por Lucilla- meridius@superig.com.br

Acabo de voltar das andanças de fim de ano, e noto que os pés de petúnia nas jardineiras da minha varanda estão “tristes”. Sim, é isto mesmo que quero dizer: tristes. As plantinhas meio murchas, com várias folhas secas ou secando, sem quase nenhuma florzinha à mostra. E não só os pés de petúnia; também duas outras plantinhas que tenho em jardineiras diversas, que até então se achavam viçosas e em fase de crescimento próspero até antes de eu viajar.
Não estive fora tanto tempo assim. Fiquei sem regá-las por um dia e meio, o que não justificaria esta baixa notável no aspecto das plantas. Daí decorreu a conclusão que talvez lhes soe meio esquisita: minhas plantinhas ficaram “tristes” com a minha ausência. E esta minha convicção se baseia na descoberta de que interagimos, sim, também com os nossos jardins. Passei a prestar uma atenção especial a isso após uma matéria assistida no Fantástico há muitos anos: cientistas haviam descoberto um jeito de “escutar”, via aparelhagem avançada, a reação das plantas. Elas emitem uma espécie de zumbido intermitente; e reagem, alterando o “tom” deste zumbido, conforme a proximidade desta ou daquela pessoa. Ficou provado, conforme estas descobertas, que as plantas de algum modo “pressentem”, reconhecem pessoas, e reagem diferente se aquele que se aproxima é alguém com a intenção de maltratá-la, ou a pessoa que habitualmente lhes presta cuidados e carinho.
Assim, converso com minhas plantinhas; os pés de petúnia especialmente, já que amo flores. Minhas jardineiras sentiram sensivelmente a minha falta. E, de ontem para hoje, com a retomada de meus cuidados, a modificação foi inegável! Noto as petúnias com algumas florzinhas novas, e as demais plantinhas, ontem murchas, já se reerguem nos canteiros com renovado ímpeto, tirando-me o receio de que estivessem secando de maneira irreversível.
Sempre comparo esta interação entre nós e nossos jardins com a própria interação humana. Amizades e relações de amor são como as flores, precisadas de carinho, atenção, calor humano. Não existe nenhuma diferença. Penso mesmo que muitos amigos já se foram do meu caminho por negligência minha, ou de ambas as partes, em prestar a devida atenção e cultivar a “plantinha” de cada caso de amizade em particular. Algumas destas plantinhas resistem até hoje, por outro lado, devido à teimosia deliciosa dos dois lados em “regar” a amizade e o afeto. E, graças a Deus, que eu me lembre, não aconteceu nenhum episódio lamentável em que alguma destas amizades “murchasse” ou “secasse” em razão de negligência intencional ou de desavenças, convertendo-se em inimizade ou desamor.
Procuro me consolar quanto a algumas flores representativas de amizades valiosas e antigas que simplesmente se foram, por força dos ritmos da vida. Relembro que, nos jardins, plantas e flores têm seu próprio tempo, de florada e de sobrevivência; dão lugar a outras que vêm - com certeza vêm. Isto preserva, ao infinito, a capacidade de amar do ser humano; é assim que o amor se confirma como a manifestação mesma da eternidade, daquela energia de coesão que mantém unidos seres e mundos. O ato de Criação é expressão pura de Amor, e ao criar incessantemente seres, dimensões e mundos, Deus mais não faz que “regar”, de maneira incansável, a sua eterna, original, e sempre renovada obra prima – seu Jardim do Éden.
Mas a manutenção deste Jardim cabe também a nós, já que trazemos no âmago de nossos espíritos o mesmo sopro desta divindade. Já ouvi que plantas semelhantes crescem e florescem com força multiplicada, devido a, de alguma forma, “sentirem” que se acham entre iguais. É a Lei do Amor, agindo e reagindo na manutenção da vida. Sigamos, portanto, este fluxo - simplesmente liberando, desimpedida, dentro e fora de nós, esta correnteza amorosa, para que também os seres humanos, nossos irmãos, flores de Deus, não estiolem à míngua deste sentimento sublime, mantenedor da própria Vida e do equilíbrio dos universos.

Com amor,
Lucilla
“Elysium”
http://www.elysium.com.br