LEI DA IMPERMANÊNCIA
por Lucilla- meridius@superig.com.br

"Um dos maiores alentos espirituais já recebidos nesta etapa corpórea me veio (talvez mais uma vez dentro da jornada eterna) através da doutrina venerável do Zen Budismo, e dos seus conceitos sobre a Lei da Impermanência que nos rege a existência.

Creio ser esta a razão maior para que eu goste tanto daquela música que, com o correr dos anos, foi batizada, pitorescamente, de “zen surfismo”: ‘Como Uma Onda’, de Lulu Santos. Para quem não se lembra, assim começa: “Nada do que foi será / de novo o mesmo que já foi um dia / Tudo passa, tudo sempre passará...”

Zen Budismo puro. Tudo passa; os dias, as horas, os minutos, e com eles os acontecimentos, dos mais insignificantes aos mais marcantes de nossas vidas, para o pior ou para o melhor, de maneira vertiginosa.

Muitas vezes me recordo da minha infância, e dos passeios em família nas praias do Rio de Janeiro; numa época em que suas areias eram enfestadas de conchas coloridas.Trinta anos depois, não são mais; o triste legado das gerações passadas para os nossos filhos hoje. O processo implacável e ininterrupto da poluição ambiental destruiu tudo. Hoje, nossos filhos não contam mais com a magia experimentada pelas crianças de meu tempo, de catar conchinhas nas areias das praias, quando as praias eram mais sinônimo de Deus, de Natureza pura e intocada pela agressão humana – sem tantos prédios sufocantes em volta, causadores da impressão frustrante de nem termos, na verdade, saído de casa, após duas horas de viagem que nos deparam, afinal, à exceção do mar acuado, com o mesmo tipo de paisagem urbana e estressante: prédios, lojas, carros em demasia, barulho, fumaça, poluição...Costumo dizer que, depois de conhecer as paisagens paradisíacas do Nordeste, perdeu para mim todo o resto daquele colorido existente, outrora, nas paisagens do Rio. E esta constatação foi apenas o golpe de misericórdia num processo que já se desenrolava, paulatino, durante estas décadas de crescimento urbano acelerado.

Tudo isso, pois, mudou, apenas para mencionar um modesto exemplo, dentro das engrenagens grandiosas da vida que nos cerca. Porque as mudanças, na realidade, sob uma ótica de cima, se dão desde as menores coisas.

Quem somos nós, de fato? Olhamo-nos no espelho e vemos, hoje, outra pessoa, completamente diferente, até mesmo, de quem éramos há um ou dois anos atrás: todas as células do nosso corpo foram renovadas; marcas novas no semblante, agora tomado por outras nuances, outras expressões: marcas imprimidas pelo correr ilusório deste ‘tempo’, dentro do eterno ‘agora’. Vemos nossas fotografias de apenas pouco tempo atrás, e nos admiramos: há dois anos, cabelos maiores ou mais curtos, com cor diferente, usávamos ou não usávamos óculos, padecíamos ou não determinados problemas de saúde. Gostávamos da comida que hoje não mais toleramos, por, afinal, termos nos enfastiado dela.

Há três anos, nos relacionávamos com pessoas que desapareceram, por qualquer razão, do cenário das nossas vidas. Hoje, vejo filmes onde, para meu constante assombro, os prédios do World Trade Center permaneciam de pé – filmes de catástrofes. E catástrofes se precipitam sobre a humanidade em ritmo acelerado, de um modo nunca nem sonhado nos tempos de nossos avós, que por sua vez desconheciam atentados terroristas, tsunamis, tornados no Brasil, temperaturas elevadas que atingem, fácil, os quarenta e cinco graus no nosso verão, em determinadas cidades...

Mudanças. Ininterruptas. Para o melhor e para o pior. “Nunca pisaremos de novo o mesmo rio”. Alegrias e tristezas, de minuto para minuto. Uma dança frenética ao nosso redor, e no nosso espírito, com as quais interagimos de maneira quase inconsciente, modelando, a partir disso, a nossa construção evolutiva. Mudanças em tudo. Desde a cor do muro do prédio vizinho, diversa daquela de há algumas horas, até as mudanças profissionais, familiares, sociais; alterações sutis de estado de espírito; de visão de vida; de roupas. Nascer, crescer, envelhecer, passar pela transição...viver!

O ritmo zen da vida. A sinfonia maravilhosa do Universo. ‘Viver, crescer, evoluir, tal é a Lei’.

Eis a nossa suprema consolação: “nada do que foi será / de novo do jeito que já foi um dia...” O sopro que nos impulsiona na direção daquela realização máxima, qual a de edificarmos criativamente, de forma sempre melhorada, a vida que habita dentro e fora de nós...

A Lei da Impermanência – a mais grandiosa das Leis – conspirando conosco, em nosso favor, para a reedição melhorada da versão que, a cada minuto, criaremos de nós mesmos e do ‘script’ que nos aguarda. Impermanência operando, incessante, a glorificação da própria vida, na vastidão infinita do Universo...

Celebremos. De posse deste dom supremo, temos todas as razões para isso.

Com amor,
Lucilla e Caio Fábio Quinto
“Elysium”
http://www.elysium.com.br
03/12/05