O CASAMENTO SOB A ÓTICA ESPÍRITA
por Lucilla- meridius@superig.com.br

"Engano invalidar a experiência do matrimônio sob a ótica estreita, atualmente muito em voga, de "não se estar casado com a sua pretendida alma gêmea".

O matrimônio, neste nosso plano transitório de experiência e aprendizado corpóreo, sempre implica em associação importante com o semelhante - não importando, aqui, sua maior ou menor duração - onde repousam, em potencial, elevadas promessas de progresso espiritual e iluminação nos envolvidos.

Alega-se que os tempos modernos mudaram o perfil dos antigos padrões de convivência, em decorrência do que não mais se justificam os casamentos duradouros, onde a parte feminina, preferencialmente, muito tolerava, à falta de alternativas de rumos outros para além da vida no lar. Seu ofício era, efetivamente, o da mulher preparada para as minúcias domésticas: o trato com os filhos, os zelos para com o marido e a infinidade de nuances existentes na rotina da família. Hoje, argumentam, ambos participando do sustento financeiro desta mesma família, rivalizando na construção material dentro das paredes de um mesmo lar, não mais se aceita a opressão e o autoritarismo partidos de uma única parte. A mulher, com efeito, a partir de suas conquistas no leque sem fim das escolhas profissionais, amadureceu num sentido inédito. Natural que os limites da sua tolerância para com este mesmo sistema patriarcal arcaico, e de dentro deste seu novo perfil ativo, não devam ser idênticos ao daquela antiga mulher resignada das gerações anteriores, naquele padrão de união matrimonial que, sem muito sacrifício, atingia as bodas de ouro, quando não as de diamante.

Entretanto, resguardado o respeito para com as razões justas que fundamentam as iniciativas e a conduta de cada tempo terreno, com suas características próprias de aprendizado, forçoso é reconhecer que esta idiossincrasia anterior muito ensinou, a ambas as partes, em termos de tolerância. O que antes sobejava em amadurecimento no convívio geralmente árduo entre dois seres que, em muitos casos, aprendiam a duras penas o valor da estima, a despeito de todos os percalços, após cinquenta ou sessenta anos de reveses divididos, lutas e sofrimentos experimentados em comum, falta hoje na tendência à impaciência inquieta do nosso século, para com as fraquezas próprias de todo ser humano, havidas em qualquer época.

O que nos engrandece em espírito, sob a ótica das muitas vidas sucessivas, é justamente esta visão de cima, adquirida a pulso das convivências repetidas e reformuladas com muitos dos mesmos personagens com os quais altercamos, em numerosas vivências materiais.

Aqui, aprende-se que aquele irmão irascível de outrora, em vida decorrida há alguns séculos, que tantas lágrimas nos custou com sua impulsividade, pode ser excelente pai amoroso em reencarnação posterior, na hora de defender, ao preço do próprio sacrifício, o bem estar da prole numerosa. Lá, acolhe-se em contexto novo a esposa difícil de outros tempos, numa renovação mútua de paciência e de entendimento para com a visão e os esmorecimentos de ânimo do outro, em nova tentativa de harmonização de sentimentos e de atitudes. O filho ingrato de alguma vida longínqua volta, inteirado de seus graves enganos; e agora, como pai dedicado daquela mãe outrora tripudiada, experimenta, em toda a extensão, os zelos angustiados de todos estes que, como anjos tutelares, acompanham os passos de seus rebentos, desde os primeiros albores de suas jornadas no solo terreno. Ainda, noutro lugar, amigos em espírito combinam grandes realizações em favor da vida de uma família em comum, reencarnando em mesma época, como primos ou como irmãos.

É uma visão estendida, sob o prisma das vidas sucessivas, da conscientização que deveria existir, de maneira mais lúcida possível, no íntimo de todos os que se imbuem na missão delicada da construção de um lar, onde serão recebidos, de resto, almas na condição de filhos, de cuja origem no tempo não guardamos noção exata no minuto material que corre; mas cujo padrão de empatia e de convivência diária, com o decorrer dos anos, indicia o tipo de trabalho a ser realizado em comum, com as respectivas lições de amor e de abnegação a serem assimiladas e desenvolvidas na experiência diária.

A existência das almas gêmeas e irmãs é indubitável; mas também é fora de questão que o mundo conturbado onde ora habitamos requer de nossa parte o reconhecimento maduro das nossas prioridades, relativas aos nossos deveres a cumprir e lições a tomar em favorecimento próprio e daqueles que nos cercam. No mundo material, as leis de sintonia que se manifestam em seus efeitos inequívocos, no terreno das empatias indiscutíveis, cedem lugar, em praticidade e premência, ao trabalho em prol do amor universal da hora que passa, à necessidade urgente de harmonização entre as diferenças, ao mesmo tempo em que funcionam como instrumento de exercício da capacidade de cada um em reconhecer o que lhe compete mais de perto, no esforço de comunhão afetiva com estes com que a vida nos presenteou na esfera familiar.

Isto não implica em desprezar o conhecimento da riqueza da vida nas várias dimensões da existência onde, certamente, nos aguardarão lugares e momentos certos, onde nos será dado viver em realização plena com aquele ser que nos é especial, em semelhança espiritual e em correspondência amorosa "perfeita".

Mas isso só nos virá no momento aprazado (e, quem sabe se talvez em oportunidade vindoura na vida corpórea, em contexto oportuno) quando afinal reluzir, sem manchas, em nosso íntimo, amor lúcido e abundante o suficiente, que ultrapasse todos os limites das preferências e exclusividades infantis, irradiando-se com espontaneidade e em processo infindo de simbiose radiante, para com toda a vida e todos os seres que nos circundam e enxameiam a exuberante riqueza do universo.

O meu afeto a todos os leitores,

Caio Fábio Quinto

pela psicografia de Lucilla

"Elysium"

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