O PONTO DE CONVERGÊNCIA
por Lucilla- meridius@superig.com.br

""(...)Imaginemos um índio, habituado aos sons da inúbia e do boré, que aspirasse a conhecer melodias mais elevadas. Apresentar-lhe, só por isso, uma partitura de Beethoven, seria o mesmo que propor a filosofia de Spinosa a uma criança de berço. Antecedendo a conquista, é imperioso que a educação lhe administre o solfejo na iniciação musical. Não esperes, assim, que os Espíritos Angélicos venham ferir-nos o aprendizado. Quaisquer recursos demasiado transcendentes que nos trouxessem, serviriam apenas como fatores de encantamento inútil, à maneira de fogos de artifício, tumultuando a emoção dos meninos necessitados de escola. Da pedra ao micróbio, do micróbio ao verme, do verme ao homem e do homem à estrela, o Universo é todo um conjunto de soberbos fenômenos, desafiando-nos o conhecimento e a interpretação.(...)”

Excerto da obra Seara dos Médiuns, de Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier

Este excerto, extraído da excelente obra veiculada pela psicografia iluminada de Francisco Cândido Xavier, veio corroborar o resultado de reflexões que nutri num passado bem recente, em virtude da minha afiliação na Fraternidade Branca, sob a égide da corrente de Saint Germain.

Minha dúvida não era apenas minha; a despeito de todo o jorro de luz expargido pelas verdades associadas aos ensinamentos dos Mestres Ascensionados, causava-me singular impressão, assim como uma nota em falso, alguns ditames que mencionavam o contato mediúnico como coisa praticamente proibida entre os adeptos da Fraternidade; quase um tabu, altamente controverso, a ser evitado por razões que, a princípio, soam justas, mas que surgem incoerentes, sob uma análise mais acurada.

Fala-se sobre os perigos - evidentes, e familiares até mesmo a qualquer médium iniciante - existentes nos domínios mais densos do astral circundante à Terra. Daí o dever-se evitar o contato com os habitantes dessas esferas, resguardando-se o exercício da canalização e do acesso extra-corpóreo apenas a quem e ao que esteja diretamente relacionado com as esferas e Seres Ascensos.

Certa vez, questionei sobre isso uma querida amiga e colega de afiliação deste Colégio da Fraternidade; e ela, muito mais experiente e evolvida em espírito e em consciência, ofereceu-me resposta curta, mas sábia: "Também penso como você; mas é certo que, quanto a estas questões, a resposta mais acertada nos alcança a partir do que nos diz o coração..."

Nunca me soou coerente que Mestres do grau de Luz de um Saint Germain, com todo o seu cabedal evolutivo, ignorassem, sob qualquer pretexto, a Lei Cósmica que ostenta como princípio o respeito sagrado ao livre arbítrio de todo aquele que se encontra em jornada, mais a frente ou mais atrás.

Jesus exemplificou a mais excelsa compreensão e tolerância perante a traição oriunda da cegueira espiritual de um apóstolo; diante da perfídia política apostrofada em sabedoria de Pôncio Pilatos, e da crueldade brutal e arvorada, arbitrariamente, em expressão máxima do poder temporal dos representantes do maior Império daquelas épocas.

No Zen Budismo temos o dedo do Mestre apontado para a lua, como o indicativo da Luz a ser alcançada, primeiramente, em si mesmo, para que então reconheçamos, de entendimento próprio, o caminho adequado a que a atinjamos, afinal, pelo nosso próprio esforço.

O Sufismo nos ensina a estar no mundo sem ser do mundo, em magnífica parábola denunciadora das nossas origens últimas que, não obstante, devem ser atingidas por intermédio do aprendizado comum a todos os que palmilham e compatilham os dias fugazes da vida na Terra.

Em toda a grande vertente, entre as muitas do Caminho, portanto, é-nos dado ver e compreender que degraus e níveis infindos existem, como apanágio de toda e qualquer criatura destinada às paragens mais gloriosas da Criação. Em nenhum momento, no entanto, qualquer Mestre, que de fato haja pontificado e exemplificado segundo este título, cerceou as lições necessárias e condizentes com a infindável profusão de estradas a serem percorridas, segundo o histórico evolutivo único de cada ser vivente e em cada esfera de consciência em que se situe num crescendo, no decorrer ininterrupto das eras.

De se estranhar que justo os veneráveis Mestres Ascensos demonstrassem tamanha limitação de visão, ao coibirem, no aprendizado de seus adeptos, aquilo que representa preciosa etapa para os que, obedecendo a importantes compromissos fraternos alinhavados no invisível, em fase anterior a cada reencarnação, se empenham no serviço nobre de burilamento íntimo a par do de esclarecimento do seu semelhante quanto ao que se refere às realidades mais sublimes do Universo, nas estâncias invisíveis e em dimensões outras e as mais inimagináveis da Vida.

A própria Doutrina Kardecista, cônscia da envergadura da responsabilidade que lhe coube enquanto vanguardista, na mentalidade ocidental da época moderna, da revelação das Verdades espirituais nas mentes ainda incipintes, ressalta veementemente o roteiro mais seguro (vide O Livro dos Médiuns), os riscos a serem evitados, o preparo imprescindível e as técnicas asseguradoras da invulnerabilidade do médium no seu trabalho de purificação interior, como garantia de imunidade contra as armadilhas que, de fato, à mão cheia, povoam o astral vibratório mais denso e mais próximo ao orbe, com suas falanges inumeráveis de irmãos desencarnados ainda profundamente precisados de compreensão e de auxílio e no mais das vezes possuídos da mais completa ignorância daquilo mesmo que diz respeito à precariedade da sua própria situação.

Porém, não é sensato que se tome a parte da questão como o todo. Não há sentido, ou justificativa plausível para que, a título de prudência truncada e mal potencializada, vejamo-nos cerceados das consolações luminosas e imperecíveis, ao termos, por intermédio do serviço mediúnico, resguardadas as alegrias santas dos contatos e reencontros com os amados que nos precederam na transição corpórea; que sejamos tolhidos da chance do serviço fraterno, possibilitador do esclarecimento oportuno aos que pranteiam, inconsolavelmente, os seus entes queridos, em decorrência do lastimável desconhecimento das Leis Maiores que governam a perenidade dos destinos humanos, para além dos Portais da morte, ainda agora insondáveis pela compreensão de muitos.

Como, a título de preservar a nós mesmos, já agenciadores da prática e detentores do entendimento indispensáveis ao pleno e eficiente esclarecimento do próximo, na direção da expansão maior de sua consciência para com as realidades elevadas para além dos limites acanhados do chão terreno, nos determos perante especulações questionáveis de qualquer ramo do pensamento, que nos não cale ao que nos segreda a voz sempre reta e sábia do nosso coração e da nossa essência mais íntima?

O ponto de convergência para o esclarecimento satisfatório desses dilemas repousa, entre tantas outras alusões benvindas, na recordação em caráter permanente, de que é imprescindível o profundo respeito a todas as etapas deste aprendizado mencionado por Emmanuel, inerente a todos no seu trajeto evolutivo e que outrora orientaram e conduziram, inclusive, a estes que hoje pontificam e nos amparam, inefávelmente, como Mestres.

Com amor,

Lucilla e Caio F.