SURREALISMO
por Lucilla- meridius@superig.com.br

Vamos falar um pouco de surrealismo. No sentido espiritual.

A vida na matéria, no chamado microcosmo, com todos os detalhes aparentemente pueris do dia-a-dia, é a massa de manobra através da qual sedimentamos valores importantes, visando nosso progresso evolutivo rumo a cumes mais elevados de atuação e de consciência, no macrocosmo - naquela realidade universal que a todos aguarda, no mais além das vivências materiais.

Qualquer objetivo visando vôos macro cósmicos de ação, portanto, em parceria com seres em dimensões mais evolvidas do Universo, que menospreze o aprendizado acanhado e ainda ríspido das realidades humanas no nosso presente plano da vida, é surrealismo puro, de vez que não se erguem edifícios arranha-céus prescindindo da lide tosca do operário com os materiais rudes, que haverão de servir de arcabouço sólido a tais colossos da arquitetura moderna.

Da mesma forma, belo, mas utópico, torna-se desferir altos vôos intelectuais acerca de realidades humanas privilegiadas no campo sócio-educacional, se no cotidiano não se aplica a regra disciplinadora, em primeiro lugar, em si mesmo, monitorando conceitos que reclamam renovação no terreno das atitudes para com a vida e para com o seu semelhante.

Efetivamente, almejando a participação nas realidades mais felizes e iluminadas da vida, não basta palavreado brilhante, escrito ou falado, em palestras, discursos ou assembléias humanistas de vanguarda, se o contexto rotineiro de tais expositores não obedecem aos elevados conceitos que ditam.

Cresce a criança sob a influência educativa obediente ao meio mais ou menos favorável no terreno social; porém, nunca resta tarde o aprendizado, por intermédio da experiência e dos exemplos a serem seguidos, dos quais a ninguém cabe alegar ignorância, em virtude da vertiginosa efervescência globalizada e disseminadora de hábitos, culturas e costumes. De maneira que pretender espiritualização no ambiente favorecido dos cursos, seminários e devaneios esporádicos, sem exercitá-lo no cotidiano doméstico - na lide com os problemas rotineiros atrelados às minúcias das vidas de filhos e de cônjuges, onde a intimidade fortuita converte em exercício compulsório de persistência e de paciência o emprego dos alardeados valores de tolerância e de lealdade, que conferirá a esta espiritualização autenticidade e valor na hora de testemunhá-la em contextos maiores e mais complexos da vida - é pretender a audácia de se projetar o dito arranha-céu sem o conhecimento mais comezinho da Arquitetura.

Assim, não abandonemos nossos sonhos de altas realizações nos domínios do espírito, rumo à eternidade cheia de luzes que, fatalmente, nos aguarda; mas exaltemos publicamente os méritos da tolerância, por exemplo, quando pudermos admitir, com honestidade, ao menos para nós mesmos, que já vimos nos condicionando à aplicação sincera da mesma no ambiente familiar: com parentes difíceis; no ter que aparar nossas próprias e reconhecidas arestas ríspidas na convivência em grupo; na própria ausência de comedimento verbal que não nos permite, freqüentemente, calar nossa impulsividade diante de meras distinções de opiniões relativas a assuntos hodiernos.

Falemos em respeito ao próximo em grande escala, quando enfim soubermos enxergar com clareza nossas próprias imperfeições, que reclamam deste mesmo próximo, também, o bálsamo do respeito e da tolerância para com as nossas limitações de visão.

Reclamemos acêrto da conduta alheia, quando enfim compreendermos que cada erro, ou cada facêta única no prisma da visão de vida humana, é ensaio para as luzes maiores no entendimento, de futuro, e para as realidades mais plenas - porque os verdadeiramente evoluídos já ultrapassaram estas fases, em razão do que nunca - a ninguém - julgam.

Cultivemos humildade no reconhecer as nossas profundas e renitentes falhas no trato com a vida que nos cerca, para aprendermos satisfatoriamente a lição silenciosa de aceitação fraterna dos nossos semelhantes e de nós mesmos, no processo ascendente de evolução conjunta.

Efetivamente, enquanto nos arvorarmos em professores de máximas que a nós mesmos ainda custa o cumprimento, naquelas nossas realidades mais íntimas e mais singelas, entre cada nascer e pôr-do-sol, nossos propósitos de atuação mais ampla nas dimensões mais felizes e evoluídas espiritualmente não passarão de mero surrealismo espiritual, onde sonharemos em soerguer à nossa volta soberbos mundos de luz, quando ainda nem nos situamos capacitados para acender as lâmpadas modestas das nossas próprias moradias.

Com amor,
Caio Fábio Quinto e Lucilla

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