VIDA APÓS A MORTE
por Lucilla- meridius@superig.com.br

"A falta de compreensão de algumas pessoas para a realidade da continuação eterna da vida me recorda uma crônica que li há alguns anos, se não me engano, de Fernando Sabino.

O cronista, de volta de viagem, contava ter entrado num táxi na saída do aeroporto, numa noite fechada de chuva e de frio, depois de deixar um vôo onde o avião planou tranqüilamente sobre o colchão de nuvens tempestuosas, e sob um lindo céu estrelado de luar, contra toda a expectativa de quem se encontrava cá embaixo, metido na umidade gélida daquela intempérie noturna.

Contou isso ao motorista do táxi que, de tão assombrado, chegou a por a cabeça para fora da janela de seu carro para conferir o céu pesado de nuvens, exclamando: "Mas que coisa!" Ao que o cronista reafirmou que sim: existia, para além daquele aguaceiro incômodo, no meio do qual as pessoas patinavam nas poças e na lama das calçadas e ruas, uma noite de sonhos, perfeita e linda, acima dos bolsões das nuvens e dos relâmpagos ameaçadores.

Quando mantemos o foco de nossa consciência numa realidade circunstancial, principalmente incômoda e rica de peripécias, qual se apresenta a nossa vida na matéria, o efeito é semelhante ao descrito nesse texto. Lembro-me, por exemplo, de ter experimentado a mesma coisa durante as minhas viagens pelas paisagens paradisíacas do nordeste do Brasil. O Rio de Janeiro, que eu deixara para trás, com todas as suas preocupações, problemas e sobressaltos próprios de cidade grande, parecia uma mentira quando eu me via mergulhada nas praias tépidas, cristalinas e de tonalidade verde-esmeralda dos mares de lugares como João Pessoa ou Natal!

Efetivamente, o lugar de onde eu provinha parecia irreal - tanto quanto estas cidades maravilhosas começaram a se assemelhar a miragens ilusórias, tão logo vi-me de volta, e me readaptei ao meu habitat tumultuado cotidiano. E tanto mais se acentua a sensação, quanto se passam os anos, distanciando-nos de uma vida que habitualmente não é a nossa.

É o que acontece com a noção da continuação da vida depois da morte: confinados no corpo material como num escafandro, achamo-nos condicionados, durante um período mais ou menos extenso de anos, às percepções restritas a esta faixa de vibrações da vida. Se, portanto, não nos empenhamos num esforço consciente, no sentido de nos mantermos, íntimamente, sintonizados com as nossas esferas de origem na espiritualidade, a ilusão tende a fortificar-se. Domina o efeito poderoso da faixa material de sensações, de feição a emprestar realidade apenas àquilo que nossos sentidos, limitados pelas condições das freqüências materiais, nos permitem perceber. E tudo mais toma feição de sonho.

Como naquela anedota do peixe que, tendo escapulido de um certo trecho de mar para dentro do oceano mais vasto, foi amaldiçoado por seus pares, por ter tentado depois convencê-los, por todos os meios, de que muito mais existia para além da realidade onde viviam, sem conhecer as maravilhas que os aguardavam num universo mais vasto, que teimosamente ignoravam.

Guardemos com zelo, portanto, a noção da existência deste "oceano" de vida que nos espera, após a curta jornada na matéria; um outro universo sem fim, o nosso local de origem, de onde proviemos! Esta certeza é fonte de alento e de esperança, e, uma vez que a assimilemos, num amanhã mais ou menos longínquo, nos será dado ver o quanto se amesquinham os pequenos dramas da nossa vida, a que atribuimos, indevidamente, tanto peso - consumindo lágrimas e energias preciosas com meros detalhes de aprendizado; com um pequeno retalho de realidade jamais comparável, em termos de qualidade, ao que nos aguardará no futuro infindo, se bem soubermos vivenciar valorosamente as lições sábias com que a divina Providência nos induz ao amadurecimento e avanço de nossa consciência.

Com amor,

Lucilla e Caio Fábio Quinto

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